Cine em Foco

A mudança de foco como um convite para se olhar através de uma nova perspectiva

domingo, 24 de janeiro de 2010

Avatar




Depois de três semanas, finalmente consegui comprar o ingresso (pela internet) para assistir Avatar 3D. O filme mais falado do momento e que já bateu todos os recordes de bilheteria. A primeira vez que vi o trailer do filme, confesso que achei tudo meio fantasioso demais. Mas, isso não seria uma barreira, pois tratava-se de um filme de James Cameron, que é um diretor que admiro muito, tanto pelo talento como diretor quanto como roteirista. Característica aliás bem rara em Hollywood hoje em dia, um diretor que também escreve o roteiro de seus próprios filmes. Só para relembrar: O Exterminador do Futuro 1 e 2, Aliens - O Resgate, Titanic, e por aí vai.

E o filme é muito mais do que o trailer mostra, muito mais mesmo! E não é só pelos efeitos revolucionadamente especiais. E nem pelo fato de ter sido meu primeiro filme em 3D. O filme fala de algo extremamente profundo e que nos remete à nossa essência quanto seres humanos. E o paradoxo maior é que o diretor-autor teve que desenvolver toda uma nova tecnologia cinematográfica (que demorou dez anos), para mostrar algo que é extremamente simples e primitivo: a importância da conexão do homem com a natureza.

Acho que esse é um filme pós-apocalíptico ecologicamente correto. Talvez seja o recomeço pós 2012. Depois do “fim do mundo” que a natureza nos proporcionará por tratá-la da forma como vimos tratando (taí Copenhagem como prova), o que nos resta depois de tudo é fazer as pazes com ela. Nos reconectarmos com o básico. No entanto, talvez isso não seja mais possível diante da forma que nos encontramos atualmente. Talvez, num futuro próximo, seja necessário adotarmos um outro corpo, pois o nosso está totalmente doente e com terríveis vícios nocivos. Talvez só mesmo em um Avatar é que tenhamos a possibilidade de refazer essa conexão perdida há muitos e muitos anos atrás.

O conceito da palavra Avatar vem, primeiramente, da religião hinduísta (do sânscrito, Avatara), e significa encarnação do espírito de um ser divino num corpo material. No caso do filme, essa possibilidade passa a ser meio que inversa, ou seja, o nosso "corpo" passa a ser o corpo de um outro ser. Sendo assim, o nosso corpo deixa de existir e a nossa essência e consciência são transferidas para um outro corpo. Esse argumento do filme que mistura religião e ficção pode nos deixar meio zonzos, mas o importante é que a mensagem que fica é "conecte-se". Conecte-se com a natureza, uns com os outros, vivos, mortos, presente, passado e usufrua de uma sabedoria que já existe e que já está aí a nossa volta, basta que consigamos enxergar, mesmo que para isso seja preciso se transformar num Avatar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

2012




É o fim do mundo!! 21 de dezembro de 2012. Anotem a data. E quer saber, eu não me importo que o mundo se acabe. Sinceramente, acho que esse mundo já deu o que tinha que dar, tanto nas questões que dizem respeito ao relacionamento humano: violência, corrupção, injustiça, ignorância, inversão de valores e falta de compreensão. Quanto no que diz respeito ao próprio clima do planeta: calor insuportável e chuvas que mais parecem dilúvios. É realmente de se pensar que o fim esta próximo.

O bom de quando algo se acaba, é que pode haver uma nova chance para um recomeço. Uma segunda oportunidade para nos fazer pensar no que fizemos de errado para que tudo se acabasse enfim. 2012, no entanto, não consegue fazer essa reflexão como foi feita, por exemplo, em outro blockbuster também sobre o fim de mundo, O Dia Depois do Amanhã, que aliás também foi dirigido por Roland Emmerich. Neste último, se optou pelo mote da questão ecológica. E já em 2012 se parte do mito do calendário escrito pela civilização Maia, que prevê fortes possibilidades de maremotos, terremotos e outras séries de graves problemas climáticos. Na verdade, a explicação dada no filme é extremamente vaga. Afinal, nos blockbusters catastróficos, em geral, o que importa não é muito o motivo, mas sim os efeitos especiais que sempre surpreendem pela perfeição e exageros.

E acho que realmente não seria uma má idéia que houvesse um novo recomeço. Inclusive acho que o mundo poderia começar se acabando pelo Brasil mesmo, mais especificamente em Brasília, e depois nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Bom, em 2012 há uma cena do Cristo Redentor se desmantelando (hehehe... é bem legal!). Essas grandes cidades, inclusive, às vezes, me dão a sensação que elas mesmas irão explodir. São tantos carros, tanta gente andando na rua, trânsito, moradores de rua, sujeira, barulho, poluição... aaaaarrrrghh... boomm!!! E aí alguns países, poderiam não ser afetados, como algum da Europa ou da Ásia. Os poucos que sobrevivessem teriam que ir morar nesses países e tendo como missão recomeçar suas vidas, criando novos conceitos, novos mitos e uma nova cultura. Repensar se da forma que estávamos vivendo antes era realmente o melhor para todos, para todos e não apenas para alguns.

Talvez eu esteja soando um pouco pessimista, confesso, mas o mundo atual nos leva cada vez mais a crer que não há solução para determinadas coisas. Parece que estamos constantemente dando socos em pontas de facas. Os governantes, os empresários e todos que detêm o poder parecem realmente pretender acabar não só com o mundo, mas também com o antigo e esquecido conceito de certo e errado, com a nossa liberdade, independência, criatividade, solidariedade, individualidade, respeito, enfim com toda a essência pela qual nos identificamos como seres humanos, se é que ainda nos identificamos como tal. E o oposto disso tudo é só o que constantemente vemos e vivenciamos. As coisas estão cada vez mais difíceis para todos, e no entanto, se vende a ilusão que tudo está melhorando e vai melhorar ainda mais. Acho isso uma grande mentira! Tenho pena da nova geração de pessoas que terá que enfrentar um mundo que parece não mais se caber em si: disputa de vaga para se conseguir estudar, trabalhar, e quando se consegue, ainda tem que sobreviver com um salário baixo, contas, dívida, e por aí vai. Por essas e por outras, é que penso que só um recomeço pode salvar um mundo e a nós próprios, portanto... que venha 2012!!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo



Esta bela frase dá título ao também belo filme de Karim Ainouz (Madame Satã e O Céu de Suely) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus). O filme está em competição dentro da mostra Premiére Brasil, do Festival do Rio 2009. Apesar de ainda não ter assistido a todos os outros 10 filmes brasileiros que estão em competição, estou apostando que algum prêmio importante o filme irá levar, quiçá o de melhor longa de ficção, ou de melhor direção.

Esses dois diretores brasileiros mostram na tela que possuem uma enorme afinidade cinematográfica, ao ponto de co-dirigirem um filme de forma admirável e ainda com uma narrativa extremamente ousada. Os dois também nasceram em cidades da região nordeste. Marcelo é de Recife (PE) e Karim é de Fortaleza (CE). E esse fato, com certeza, influenciou na escolha dos dois em fazerem um filme sobre uma viagem que perpassa várias cidades do sertão nordestino. Então, em 1999, eles juntaram uma pequena equipe e resolveram fazer essa viagem, que partiu de Juazeiro do Norte (CE), passou por Pernambuco, Paraíba, Sergipe e Alagoas. Foram registrando tudo usando uma câmera super 8, uma digital e outra fotográfica. Nessa época eles só sabiam o que queriam fazer, mas não sabiam ainda como iriam transformar aquelas imagens em um filme. Só depois surgiu a idéia de criar um personagem, um geólogo que faz essa viagem para fazer um estudo sobre a construção de um canal, e também para tentar esquecer a perda de um grande amor. Com isso, o filme ganha uma enorme abrangência, tanto na sua linguagem, pois é uma mistura de documentário com ficção, quanto na beleza do tema em si. Graças as paisagens e as pessoas que o personagem vai encontrando pelo caminho, o filme se torna um grande exercício de reflexão sobre a vida, a vida dos brasileiros, a nossa própria vida, o amor e a perda dele.

A narrativa do filme é o tempo todo em câmera subjetiva, ou seja, o ponto de vista do personagem principal. E em nenhum momento vemos quem ele é, só escutamos sua voz, a sua narrativa. Esse recurso faz com que o filme se transforme em uma verdadeira experiência para nós, os espectadores. É quase como se nós nos tornássemos aquele personagem e assim passamos a sentir o que ele sente. O filme se torna um interessante e profundo processo de introspecção. Tudo porque o nosso olhar passa ser o olhar daquele personagem. Porém, cada um irá interagir e reagir de forma diferente, pois a experiência de vida dele se mistura a experiência de vida de cada um de nós. E isso faz com que cada um construa internamente e paralelamente o seu próprio filme. O trabalho do ator (Irandir Santos), que interpreta esse personagem também é sensacional, pois suas emoções são passadas somente através da sua voz.

O filme ainda não tem previsão de data de estreia. Depois do Festival do Rio, ele será exibido na Mostra de São Paulo. Só nos resta ficar na torcida para ele entrar em circuito e possibilitar que uma maior quantidade de pessoas possam participar dessa maravilhosa experiência que o filme proporciona. Que bom que o Brasil finalmente retomou o cinema, mesmo ainda sendo muito difícil se fazer cinema no Brasil. Pessoas talentosas e apaixonadas por essa arte encorajam e estimulam todos que também admiram e querem fazer cinema, principalmente um cinema como esse, de coragem, beleza e grandiosidade.