Postagens

Mostrando postagens de 2012

O Som ao Redor

Kleber Mendonça Filho finalmente estreia seu primeiro longa de ficção. O diretor e roteirista, que também foi crítico de cinema, ficou conhecido pelos seus premiados curtas como “Vinil Verde” (2004) e “Recife Frio” (2009) [quem quiser assitir, está diponível no Porta Curtas]. E não poderia ter sido uma estreia melhor; o longa é vencedor de importantes prêmios em diversos festivais no Brasil e no mundo. Além de ter sido listado pelo The New York Times como um dos 10 melhores filmes de 2012 ao lado de diretores como Tarantino, Spielberg e Haneke.
O filme começa com uma série de fotos em preto e branco de pessoas que parecem ser de uma área rural. Em seguida vemos uma criança andando de patins dentro de um condomínio de prédios residenciais. A partir daí somos apresentados aos moradores de um bairro de classe média do Recife/PE. A narrativa nos leva para dentro dos apartamentos e cotidiano dos diferentes habitantes que ali residem. Contudo, o que realmente interessa nas imagens e na monta…

Mia

O filme escrito e dirigido pelo ator argentino Javier Van de Couter, foi exibido no 20º Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade, que acontece todo ano em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo que levou, este ano, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. A produção também recebeu o prêmio de Melhor Direção no 30º Festival Internacional de Cinema de Havana.
A personagem-título do filme não está presente de forma visível. O que sabemos dela está contido nas suas próprias palavras que são lidas, inicialmente, por Ale, um travesti que trabalha catando papelões nas ruas de Buenos Aires. Ale recolhe uma caixa jogada no lixo e nela encontra um diário e outros itens que pertenciam a Mia. A partir daí, ela passa a se envolver de uma maneira extremamente emocional com a vida que está ali relatada pela sua autora. Ao mesmo tempo, também nos é apresentado o contexto de vida de Ale, que mora em uma espécie de favela/comunidade, chamada Aldeia Rosa, onde vivem ali vários outros travestis. Além disso…

Gonzaga, de Pai para Filho

O diretor Breno Silveira retoma o tema biográfico no cinema ao retratar a vida de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Anteriormente, em 2005, havia feito “2 Filhos de Francisco”, contando a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. E, novamente, com Patrícia Andrade, divide a parceria no roteiro do filme, que centra sua narrativa na difícil relação entre pai e filho.
A semelhança física dos atores com seus personagens reais é o que mais surpreende. Destaque para Júlio Andrade, que parece ter, literalmente, incorporado Gonzaguinha. O ator gaúcho diz que sempre teve uma forte identificação com a música do cantor e que, inclusive, também chegou a cantar em barzinhos durante uma época de sua vida, e canções de Gonzaguinha faziam parte de seu repertório. Além de Júlio, o ator mirim Alison Santos representa o cantor em sua infância. Sendo que ele já era conhecido de Breno, pois havia feito o teste para seu filme anterior, “À Beira do Caminho”. O Gonzaguinha adolescente ficou por conta…

As Vantagens de Ser Invisível

Em 1999, o roteirista, diretor e escritor americano, Stephen Chbosky, lançou o livro “The Perks of Beign a Wallflower”. Em 2012, o mesmo Stephen roteirizou e dirigiu a adaptação de sua obra literária para o cinema, cuja intenção é fazer com que mais pessoas conheçam a história criada por ele, que é parcialmente auto-biográfica, e relata sobre o período de sua adolescência. Tal intuito lhe ocorreu pelo fato de ter recebido ao longo dos anos, desde que o livro foi publicado, inúmeras cartas de jovens adolescentes que lhe agradeciam e enalteciam o quanto tudo aquilo escrito por ele, lhes salvaram de alguma forma.
O título original do livro e do filme vale a pena ser melhor compreendido. Wallflower é um termo em inglês que diz respeito a alguém que está sem par em um baile e fica encostado na parede, alguém que está à margem do que se passa, um observador. Até que a tradução para o português ficou interessante, já que não teríamos uma palavra específica para tal expressão. Sendo assim, é p…

Festival do Rio 2012

Este ano estou levando o festival de forma bem tranquila. E, curiosamente, estou reparando que tem acontecido sempre alguma situação interessante durante ou depois das sessões. Até agora assisti cinco filmes. E reparei que para cada sessão, sempre tiro alguma frase marcante daquele dia. Vamos então a alguns desses filmes e suas respectivas situações e frases.
ELENA (idem, 2011), de Andrei Zvyagintsev. A produção russa foi vencedora do Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cannes de 2011. Andrei é o mesmo diretor de O Retorno (Vozvrashchenie, 2003), que, na época, ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Veneza. Elena narra a história da personagem título, que possui uma relação de esposa/empregada/enfermeira com Vladimir. Eles se consideram casados, no entanto, dormem em cômodos separados. Aos poucos vamos entendendo como Elena entrou na vida do homem com quem mora. Percebemos que ele possui uma boa condição financeira e tem uma filha, que raramente vê. Elena tem um filho extre…

Beleza Adormecida e Movimento Browniano

Dois filmes que podem ser considerados estranhos e com temas idem. Assistidos em duas sessões seguidas. Primeiro a produção australiana, Beleza Adormecida (Sleeping Beauty, 2011), escrita e dirigida pela estreante Julia Leigh. Tanto no trailer quanto no cartaz há os seguintes dizeres: “Jane Campion apresenta”. Com certeza, a renomada diretora de O Piano (The Piano, 1993), contribuiu de alguma forma para o filme, apesar de seu nome não aparecer nos créditos, só mesmo na parte de “a very special thanks”. O filme seguinte foi o holandês Movimento Browniano (Brownian Movement, 2010), da também diretora e escritora Nanouk Leopold, sendo este é o seu primeiro filme falado em inglês (e francês). Os anteriores eram falados em holandês. O que podemos chamar de estranheza está tanto na forma como no conteúdo das duas histórias. Ambos possuem em comum a abordagem que cerca aquilo que podemos considerar como um certo tipo de fetichismo. No entanto, o objeto de fetiche, no caso dos dois filmes, é …

Histórias que só existem quando lembradas

Julia Murat é filha da também diretora Lúcia Murat ("Quase Dois Irmãos", 2003 e "Uma Longa Viagem", 2011). Começou no cinema como estagiária de assistente de direção de Ruy Guerra, no filme "Estorvo" e, desde então, vem se firmando no meio cinematográfico, sendo este o seu primeiro longa. O filme, já acumula no currículo diversos prêmios no exterior, em importantes festivais, tais como: Veneza, Toronto, San Sebastian, entre outros.
A ideia para o longa surgiu em 1999, quando Julia viajava com a mãe na gravação de "Brava Gente Brasileira", no Mato Grosso do Sul. A equipe estava em Forte Coimbra e descobriu que o cemitério da cidade estava fechado. As pessoas que faleciam deviam ser entrerradas na cidade de Corumbá, há sete horas dali. Isso foi o suficiente para o argumento do que viria se tornar "Histórias...". Depois disso, em 2008, Julia fez um documentário chamado "Dias dos Pais", em que entrevistou vários moradores da regiã…

Minha Felicidade

Definitivamente este não é um filme feliz. O título não passa de uma grande ironia que o diretor Sergei Loznitsa usou para promover o conceito da sua obra. Nascido na Bielorússia e criado na Ucrania, este é o seu primeiro longa de ficção. Anteriormente só havia feito documentários, e talvez pelo fato dessa sua premissa, o filme narre seus acontecimentos com um certo olhar documental, no sentido de apenas registrar uma determinada história, tentando ao máximo se abster de julgamentos. Nas palavras do próprio diretor, em uma entrevista cedida ao crítico Luiz Carlos Merten: "eu não julgo nada, o espectador que julgue".
O filme começa com um homem sendo jogado em uma vala para em seguida ser coberto por cimento. Logo depois aparece um trator empurrando um monte de terra em direção aos nossos olhos até que a tela do cinema fique totalmente escura e tenhamos a sensação de termos soterrado juntamente com aquele homem. Essa abertura não terá ligação alguma com nenhum outro personagem…

Um Método Perigoso

Diretores com estilo próprio costumam chamar a atenção da crítica e do público. O canadense David Cronenberg sempre teve seu estilo associado a filmes em que seus personagens apresentassem anatomicamente formas, literalmente, agregadas ao universo contextual de suas histórias. Como se a teoria de Marshall McLuhan(autor do livro "Os meios de comunicação como extensões do homem") fosse colocada em prática em filmes como Videodrome (1983), A Mosca (1986) e Existenz (1999). Essa característica sempre foi tão forte ao ponto do diretor ganhar o apelido de David CronenBLERG, como reação de repugnância provocadas pelas cenas de seus filmes. No entanto, a partir de 2002 com Spider, Cronenberg parece estar menos escatológico e mais psicológico. Tal tendência segue nos filmes seguintes, sempre estrelados por Vigo Mortensen: Marcas da Violência (2005), Senhores do Crime (2007) e Um Método Perigoso (2011).
Neste último percebemos que Cronenberg, na verdade, não mudou de estilo, ele soment…

O Artista

Parafraseando Arnaldo Antunes, "antes de existir a voz existia o silêncio", e quando existia o silêncio das palavras no cinema, ele era mudo. Com isso, a mudez das palavras fazia com que a importância das imagens e a expressão dos atores fossem vitais para se alcançar a compreensão das histórias projetadas na tela. A música também estava presente, no entanto, do lado de fora. Era orquestrada ao vivo dentro das salas e não inserida dentro dos filmes. É essa época que a produção vencedora do Oscar 2012 de Melhor Filme, resgata de maneira saudosa e homenageosa.
Porém, o diretor e roteirista, Michael Hazanavicius consegue fazer com que seu filme vá além de uma simples homenagem. O Artista fala sobre uma ruptura de dois momentos extremamente marcantes e que irão mudar para sempre a história da indústria cinematográfica mundial. O que passa a ser considerado o passado: os filmes mudos; e o futuro do cinema: os filmes falados. E é baseado neste fato que se delinea e se define a hist…

Precisamos falar sobre Kevin

"Só porque nos acostumamos com algo, não significa que gostamos daquilo". (Kevin, para a mãe, aos oito anos de idade)
O filme começa com uma fusão entre uma cena de uma cortina branca para um plano em zenital de uma multidão coberta por uma textura vermelha. Aos poucos percebemos que se trata da Tomatina, tradicional festa de guerra de tomates que acontece na Espanha. Em seguida vemos Eva (Tilda Swinton), sorridente e feliz, sendo levantada e carregada por vários braços que a largam em cima de uma poça de polpas de tomates. Pode-se dizer que tal cena funciona como um prelúdio para aquilo que ainda virá a acontecer na vida de Eva, ao relacionarmos o vermelho dos tomates com sangue.
A partir daí as cenas que se seguem vão aos poucos ganhando ritmo. A montagem ocorre dentro de três tempos narrativos diferentes: um no presente e dois tempos no passado. Destes dois, um quando Eva ainda se considerava uma mulher livre e o outro a partir do momento em que fica grávida de Kevin. A mar…

Tomboy

Segundo o dicionário, a palavra "Tomboy" significa menina levada, que se interessa por atividades masculinas. E esse é o nome e tema do segundo longa da diretora francesa Céline Sciamma, que mais uma vez retoma a questão da sexualidade na pré-adolescência. Seu primeiro filme, "Lírios D'Água" (Naissance des pieuvres,2007), aborda o despertar do desejo sexual entre meninas e meninos, sendo que uma dessas meninas se interessa por outra menina. Tanto em "Lírios D'Água" quanto em "Tomboy", a diretora e também roteirista, consegue referir-se ao universo infantil fazendo uso de uma narrativa que nos permite uma assimilação nostálgica por recordações daquilo que também já passamos.
Pelo título do filme já sabemos que Laure trata-se de uma menina, mas se não soubéssemos, poderíamos tranquilamente considerar que se tratava de um menino. Ela tem cabelos curtos, um rosto assexuado, usa roupas não muito femininas e brinca normalmente, tanto como faria…