"Cinquenta Tons Mais Escuros" prova que best-sellers e campeões de bilheteria não estão relacionados com a qualidade de suas obras
Erika
Leonard James é uma ex-executiva de TV, que ao cinquenta e poucos anos
de idade resolveu se aventurar na literatura. A britânica lançou, em
2011, "Cinquenta Tons de Cinza" (Fifty Shades of Grey), o que seria seu primeiro livro de uma trilogia do gênero romance erótico.

A
história gira em torno do universo de um protagonista que é
multimilionário, lindo e musculoso. Tudo seria o cliché do homem
perfeito, se não fosse por um detalhe, ele é sádico e gosta de bater em
mulheres que leva para cama. Christian Grey (sobrenome que foneticamente
faz o trocadilho com a palavra “gray”, que em inglês significa cinza) é
o personagem que simboliza o homem que leva as mulheres à loucura de
tanto tesão. Remete bastante aquele tipo de literatura de banca de
jornal, como “Bianca”, “Sabrina”, entre outros. Porém, tudo muda na vida
de Christian quando ele conhece Anastasia, uma mulher ingênua e virgem
por quem ele se apaixona e que, para sua surpresa, não aceita sua
condição psicopatológica (segundo o dicionário) de homem dominador que
exige uma mulher submissa na cama e na vida.
O livro
se transformou, rapidamente, em um enorme sucesso de vendas por todo o
mundo. Sendo assim, imediatamente os estúdios de Hollywood se
anteciparam para comprar os direitos da obra e a transformarem em filme.
Assim como foi feito com as sagas e febres literárias “Harry Potter” e
“Crepúsculo”. A diferença entre estes e o de E. L. James está no tipo de
público que consumiu e consome seus livros. Enquanto Harry e Crepúsculo
foram devorados por crianças e adolescentes. A história de Christian
Grey foi assimilada por mulheres, na chamada meia-idade (entre 45 a 55
anos), casadas e com filhos. E nas entrelinhas, isso diz muito a
respeito dessas mulheres. Bem, mas isso já seria um outro tipo de
discussão.
O segundo filme, "Cinquenta Tons Mais Escuros" (Fifty Shades Darker, 2017),
continua a história exatamente de onde parou o primeiro. Anastacia
(Dakota Johnson) está ainda muito chateada com Christian (Jamie Dornan),
por considerar que ele a desrespeitou e foi longe demais com seu
sadismo sexual. Contudo, ele consegue convencê-la de reatar o
relacionamento lhe enviando flores, convidando-a para um jantar, cujo
diálogo demonstra o total desprendimento do roteirista em aprimorar o
texto do filme, talvez porque não se tenha muito o que fazer em relação
ao texto do livro. O resultado é algo do tipo:
Christian: Anastasia, eu quero conversar com você. Por favor, venha jantar comigo!
Anastacia: OK. Eu só vou porque estou com fome.
Mas, o
melhor é que ao chegar ao restaurante ela pede uma salada de quinoa
(???) Enfim, os dois acabam se entendendo, porque ele diz que está
disposto a se relacionar com ela sem impor suas condições de
sadomasoquismo.
A partir
daí eles começam um namoro e, é claro, muitas cenas de sexo se seguem. O
irônico é que Anastasia acaba sentindo falta de um toque mais selvagem
do Christian e pede que ele pratique um pouco o seu lado sádico com ela.
Mas, tudo envolto em um ambiente e clima completamente asséptico,
afinal, o livro e o filme são voltados para um público de classe média, e
que apesar da temática, precisa de um certo moralismo visual.
Nessa
segunda parte da trilogia, é apresentado um pouco mais da intimidade de
Christian e do seu passado, inclusive uma de suas ex-namoradas submissas
reaparece para assombrar seu atual relacionamento. O roteiro até tenta
criar uma atmosfera de suspense em relação a isso, porém, não se
sustenta. E a tal mulher que o ensinou e o apresentou ao universo
sadomasoquismo também aparece e é interpretada por Kim Bassinger.
"Cinquenta Tons Mais Escuros" ainda revela que a resposta do motivo da psicopatologia de Christian
está freudianamente em sua mãe, que era uma viciada em crack e morreu de
overdose quando ele tinha quatro anos de idade. O esforço de Jamie
Dornan em mostrar o quanto Christian é um homem mentalmente perturbado é
constrangedor. Tanto para o ator em si, quanto para os espectadores.
As cenas
e os diálogos são realmente risíveis, assim como foi no primeiro filme,
mesmo tendo diretor e roteirista diferentes. Isso só nos prova que
livros best-sellers e filmes que arrecadam muito dinheiro em bilheterias
nem sempre são medidas de qualidade de suas obras.
FICHA TÉCNICA:
Diretor: James Foley
Roteiro: Niall Leonard, baseado no livro de E.L. James
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Kim Basinger, Marcia Gay Harden
Produção: Dana Brunetti, Michael De Luca, E. L. James, Marcus Viscidi
Distribuição: Universal Pictures
Duração: 118 min.
País: EUA
Ano: 2017
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