Birdman, ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)



Confesso. Depois que adquiri uma Smart TV, as minhas idas ao cinema se tornaram ainda mais criteriosas. Com uma TV que se conecta à internet, somado a serviços e sites que disponibilizam filmes online, ir ao cinema significa, para mim, escolher filmes cuja imagem e linguagem valem a pena serem assistidos numa sala de projeção. Não estou aqui diminuindo a experiência de ir ao cinema, de forma alguma, pelo contrário, agora estou valorizando, ainda mais, essa experiência. O filme precisa realmente valer tal locomoção e o preço do ingresso que se paga.

Dito isso, este blog se propõe a avaliar filmes que apresentam algum tipo de inovação estética e/ou de linguagem aos seus espectadores. Seguindo então por essa premissa, em relação ao Oscar 2015, que acontece no dia 22 de fevereiro, dentre os 8 indicados ao prêmio de Melhor Filme, destaca-se somente um: Birdman, ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) [Birdman, or (The Unexpected Virtue of Ignorance, 2014)]. 

O diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu, que ganhou maior destaque em 2000, com o excelente Amores Brutos (Amores Perros), adentrou-se na indústria hollywoodiana dirigindo filmes como 21 Gramas (21 Grams, 2003) e Babel (idem, 2006). Iñárritu, que também é roteirista, dirigiu Birdman de maneira primorosa e ousada. Isso porque o filme se desenvolve dentro um pseudo plano-sequência. A construção narrativa, que foi precisamente pré-estruturada, utiliza recursos tecnológicos capazes de nos darem a sensação de continuidade e invisibilidade dos cortes entre as cenas no decorrer do filme. Tal escolha é totalmente pertinente para o cenário em que se passa quase todo o enredo da história, que é os bastidores de um teatro. Sem falar, que contribui imensamente para o desenvolvimento dramático e psicológico do personagem de Michael Keaton, que está numa corajosa atuação na pele (e penas) do ator/celebridade Riggan Thomson.

A trilha sonora que é o leitmotiv de Riggan também chama a atenção por criar uma crescente tensão ao ritmo do filme. A escolha é de uma bateria jazzística, que remete uma ideia de passagem de som ou de aquecimento sonoro para um show que ainda estreará, o que novamente, se encaixa perfeitamente com o contexto que estamos acompanhando. E o contexto é o bastidor da montagem de uma peça que é dirigida e estrelada por Riggan Thomson, um ator de cinema de Hollywood que ficou conhecido no passado por um personagem super-herói intitulado Birdman. Riggan caiu no ostracismo da indústria do cinema e resolveu adaptar o livro do escritor americano Raymond Carver, “O Que Falamos Quando Falamos de Amor” (What We Talk When We Talk About Love, 1981) para uma peça, e assim, adentrar no ramo de teatro, em Nova York. A partir desse gancho, o filme usa e abusa da metalinguagem para satirizar a própria indústria cinematográfica hollywoodiana e, por que não, satirizar o próprio Michael Keaton, que assim como seu personagem, interpretou, no passado, o super-herói Batman (idem, 1989), dirigido por Tim Burton.

Riggan, como quase todos atores/celebridades, sofre de megalomania e está num esforço genuíno para fazer um bom trabalho como diretor e ator da peça que está montando. Vários imprevistos e acidentes acontecem, e ele vai sendo engolido pela desejo obsessivo de reconhecimento do seu valor quanto artista. A pressão que ele sente é tanta que passa a ser perseguido pela voz e fantasma do seu velho sucesso, o herói Birdman. E ainda, devido a sua personalidade megalomaníaca, acredita que consegue mover objetos com a força do pensamento. Nesses momentos a linguagem do filme ganha um tom fantástico. A estratégia de manter a narrativa em plano-sequência, inclusive nesses momentos, transforma o filme em um verdadeiro espetáculo de técnica e de imagens que permeiam as fronteiras do que é real e do que é fictício no universo mental de Riggan. A intenção de Iñárritu, como ele mesmo disse em uma entrevista, é que o fluxo contínuo da narrativa do filme leve os espectadores por uma viagem emocional do contexto egoico do personagem. Dentro dessa jornada há elementos tanto reais quanto irreais, que são quixotescamente confrontados para que o herói aqui, alcance suas próprias conclusões sobre sua existência, mesmo que seja de maneira metafórica, como fica registrado no final do filme. Afinal, tudo que Riggan/Birdman quer é voar e se sentir acima de todos novamente.

Comentários

Amália disse…
Bem interessante!
Tomara que chegue aqui em Vitória.
Allan disse…
Perdemos aquele dia :(
Mas vou assistir...
Bjos