
Os filmes de Lee são conhecidos
por sempre abordarem questões sociais e raciais. Desde “Faça a Coisa Certa” (Do The Right Thing, 1989), ele vem
imprimindo um estilo próprio de linguagem fílmica. O diretor utiliza alguns
recursos que são suas marcas próprias. É constante em seus trabalhos vermos cenas
onde algum ator fala olhando para a câmera, como se estivesse dialogando com o
espectador. Ele também faz uso de um recurso chamado dolly shot, onde coloca o ator/atriz em cima de um dolly (carrinho utilizado para
movimentar a câmera). Além da simbólica frase “WAKE UP!” (acorde!), que sempre
é dita por algum personagem, como se fosse uma sacudida para que prestássemos
atenção no que realmente está acontecendo dentro da narrativa.
“Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman, 2018) é baseado em uma
história real dos anos 70, quando um policial negro chamado Ron Stallworth, conseguiu
se infiltrar na organização da Ku Klux Klan, na cidade de Colorado Springs, no
estado do Colorado. O filme, que levou o prêmio do júri no Festival de Cannes
2018, consegue ser cômico e assustador ao mesmo tempo.
A abertura do filme é com um
fictício Dr. Kennebrew Beauregard, interpretado por Alec Baldwin. Ele fala
olhando para a câmera e com uma projeção ao fundo do filme “O Nascimento de Uma
Nação” (The Birth of a Nation, 1915),
de David W. Griffith. Para aqueles que não conhecem, este filme mudo foi uma
grande produção dessa época, e é considerado de extrema importância para a
história do cinema, devido suas inovações narrativas e tecnológicas. No
entanto, sua história apresenta um teor violentamente racista e repugnante. O doutor
da abertura do filme de Lee faz uso de uma linguagem recheada de jargões pseudocientíficos
para “comprovar” teorias sobre a supremacia da raça branca e inferioridade dos
negros e judeus. Apesar de soar um pouco performático e quase caricato, o
discurso de Beauregard funciona para contextualizar o pensamento racista de
determinados núcleos da sociedade. Sem falar na referência ao estilo de
propaganda que era feito pelo partido nazista na Alemanha, que se valia do
mesmo tipo de “profissionais” e “teorias”.
(Cena do filme "O Nascimento de Uma Nação", 1915)
No ano de 1978, Ron Stallworth,
era um jovem negro de 25 anos, que havia acabado de ser remanejado para o setor
de Inteligência da Polícia de Colorado Springs. Num dia normal de trabalho, ele
folheia o jornal local e vê um anúncio da Klu Klux Klan, com um número de
telefone. Resolve ligar e cai em uma caixa postal, onde deixa um recado dizendo
o seu interesse em se afiliar a organização. Segundos depois, o telefone toca e
ele conversa com o presidente local da KKK de Colorado Springs. Nesse momento,
Ron faz quase da mesma forma que o doutor no início do filme, ou seja, através
do uso de uma “linguagem de branco” e do discurso ele consegue convencer o
presidente de suas intenções e crenças a ponto de fazê-lo ter a vontade de
conhecê-lo pessoalmente. É neste ponto que o filme cai para o viés cômico,
afinal Ron é negro e não pode ir conhecer ninguém ligado a tal organização. A
solução então é fazer com que outro policial, branco, de preferência, se passe
por ele.
John David Washington foi o escolhido
para interpretar Ron. John é filho do grande ator Denzel Washington e até pouco
tempo era jogador de futebol. Largou a carreira de atleta e decidiu atuar a
partir de 2015, quando estreou na série “Ballers”, da HBO, interpretando,
ironicamente, um jogador de futebol.
O parceiro de trabalho de Ron, e
que irá fingir ser ele, é vivido pelo versátil e talentoso Adam Drive, que
também ficou conhecido através do canal HBO, com a série “Girls”, que terminou
ano passado. Adam vem se consolidando cada vez mais no cinema, principalmente
depois de interpretar Kylo Ren nos últimos filmes da saga Star Wars.
A parceria dos dois personagens
vai além dos clichés dos filmes policiais, do estilo policial negro/policial
branco, tais como “Um Tira da Pesada” ou “Máquina Mortífera”. Pois, eles
precisam realmente entender a linguagem, cultura e vida um do outro. A
interação é mais profunda, ao ponto de provocar em Flip (Adam Drive) a dor, o
incômodo e a raiva ao sentir na pele o preconceito racial. Isso porque, no
roteiro do filme, Flip é judeu e estes também são alvos de preconceito por
parte da organização.
Outros destaques do filme vão
para o ator Topher Grace (do seriado “That
‘70s Show”) que interpreta David Duke, o líder da KKK nacional, que passa a
ter longas conversas com Ron por telefone, sem nunca ter desconfiado que ele
seria negro. E da participação especial e emblemática do ator, cantor e
ativista político, Harry Belafonte em uma das cenas mais fortes e aterradoras
do filme. Terror esse que se faz apenas no teor narrativo, quando ele relata o
caso de Jesse Washington, que é real e aconteceu no ano de 1916. Para dar mais
ênfase a crueldade, a narrativa é colocada em montagem paralela com a cena do
batizado dos novos membros da KKK.
Spike Lee finaliza o filme com
cenas jornalísticas de um fato ocorrido na cidade de Charlottesville, no estado
da Virgínia, no ano passado. Uma marcha de grupos da extrema direita,
juntamente com neonazistas e membros da KKK se uniram para protestar pela
retirada de uma estátua de um general confederado que era a favor da
escravidão. Os manifestantes foram como se estivessem indo para uma guerra,
portando armas de diversos tipos, escudos e outros aparatos bélicos. Em reação
a tal manifestação, centenas de pessoas e de grupos antifascistas foram até a
cidade para expressarem seus sentimentos contra os conservadores. Líderes
religiosos, moradores da cidade e outros movimentos antirraciais também se
juntaram para resistir a marcha da direita. O resultado foi de muita violência
e culminou com um carro que acelerou por cima de inúmeros manifestantes
pacíficos, deixando muitos feridos e três mortos. Spike Lee ainda mostra o
pronunciamento do presidente Trump a respeito do ocorrido dizendo que havia
violência dos dois lados. Em seguida mostra David Duke dando uma entrevista, enfatizando
o que Trump proferia durante sua campanha e como ele iria tornar a América um
grande país novamente. E sim, foi esse mesmo David Duke que disse que Bolsonaro
soava como eles.
Ao final do filme ficamos com
aquela sensação de tristeza por sentirmos o quanto o preconceito não só ainda
se faz presente nos dias de hoje, como parece ter crescido e, o que é ainda
pior, está mais organizado politicamente. É inegável que a violência racial e o
preconceito sempre existiram, porém, esses movimentos da extrema direita se sentem legitimados pelo governante de seus países a praticarem tais atos agressivos. E é
isso que realmente é mais assustador!
Ficha
Técnica:
Diretor: Spike Lee
Roteiro:
Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Spike Lee.
Baseado no livro escrito por: Ron Stallworth
Elenco: John David Washington, Adam Drive, Alec Baldwin, Robert John Burke, Brian Tarantina, Laura Harrier,
Elenco: John David Washington, Adam Drive, Alec Baldwin, Robert John Burke, Brian Tarantina, Laura Harrier,
Produção:
Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun
Redick
Distribuidora: Universal Pictures
Duração: 02h15min
País: EUA
Ano: 2018
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