sábado, 3 de março de 2012

O Artista



Parafraseando Arnaldo Antunes, "antes de existir a voz existia o silêncio", e quando existia o silêncio das palavras no cinema, ele era mudo. Com isso, a mudez das palavras fazia com que a importância das imagens e a expressão dos atores fossem vitais para se alcançar a compreensão das histórias projetadas na tela. A música também estava presente, no entanto, do lado de fora. Era orquestrada ao vivo dentro das salas e não inserida dentro dos filmes. É essa época que a produção vencedora do Oscar 2012 de Melhor Filme, resgata de maneira saudosa e homenageosa.

Porém, o diretor e roteirista, Michael Hazanavicius consegue fazer com que seu filme vá além de uma simples homenagem. O Artista fala sobre uma ruptura de dois momentos extremamente marcantes e que irão mudar para sempre a história da indústria cinematográfica mundial. O que passa a ser considerado o passado: os filmes mudos; e o futuro do cinema: os filmes falados. E é baseado neste fato que se delinea e se define a história do personagem principal, George Valentin. Ator de sucesso no cinema mudo, que se torna decadente e completamente esquecido com o surgimento do cinema falado.

O filme começa e termina de forma metalinguística, mostrando o cinema dentro do cinema. O ator Jean Dujardin interpreta seu personagem, que também é ator, de maneira fenomenal. Ele é um típico canastrão, que faz caras e bocas para conquistar seu público. É casado, porém não é feliz com sua esposa e nem ela com ele. E o seu companheiro coadjuvante na vida e nas telas é Uggie, um cachorro espertíssimo que nos comove em várias cenas, tanto dos filmes que Valentin interpreta quanto no filme em si, interpretado por Dujardin.

O filme se densenrola a partir do momento em que entra em cena Peppy Miller (Bérénice Bejo, que é casada com Hazanavicius), uma jovem atriz que, com uma ajuda inicial de Valentin ascende em sua carreira justamente no momento em que ele começa a decair. A presença dela na vida dele representa aquilo que veio para ficar em oposição aquilo que não mais será. Ela é jovem, vibrante, aberta as novas tecnologias e logo adere ao cinema falado. Ele é mais velho, conservador e não se conforma com a mudança sonora. Assim como o personagem Valentin, outros artistas reais, da época, também não concordavam com tal nova tecnologia. Charles Chaplin, por exemplo, foi o maior representante desse movimento contrário ao cinema falado. Tanto que conseguiu resistir por um bom tempo, tendo em vista que o cinema sonoro começou no início da década de 30, seu último filme mudo foi "O Grande Ditador" (The Great Dictator, 1940). Chaplin dizia que a partir do momento que seu personagem falasse, seria a sua morte. E assim ocorreu. O seu "vagabundo" não mais apareceu nos filmes que vieram a seguir. E o mesmo ocorre com Valentin, ele deixa de ser chamado para as novas produções até cair no completo esquecimento.

Há um momento em O Artista que considero funcionalmente brilhante. Trata-se de um sonho que Valentin e que nele consegue ouvir os sons dos objetos dentro do seu universo mudo. Essa cena consegue dimensionar a estranheza e maravilhamento que essa ruptura entre o cinema mudo e falado provocou. E ao mesmo tempo é interessante observar que tal cena só foi possível devido a ousada escolha do diretor Hazanavicius em fazer um filme igualmente mudo e em preto e branco. O encantamento do cinema está justamente em explorar as suas infinitas formas de linguagem. E estas não estão, necessariamente, centradas em questões tecnológicas. Pelo contrário, são nas questões simples, como se omitir a fala dos atores, que se consegue extrair toda grandeza que essa arte pode nos proporcionar. É claro que é preciso olhar pra frente, no entanto, a sabedoria em reutilizar o que já foi feito é capaz de produzir resultados surpreendentementes geniais.

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